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Onde está a pureza de coração que eu perdi?
Como posso ter acumulado tantas armas dentro de mim?
 
 Tudo tem um mesmo princípio: o viver desorganizado.
Num mundo tão violento como o que ficou, parece “normal” sermos “safos”. 
Sem percebermos vamos “nos virando”, “fazendo das nossas”... sobrevivendo.
O assunto do momento parece ser mesmo a VIOLÊNCIA.  Sim, mas quem a pratica?
É claro que há violências e violências, mas será que eu percebo a minha? 
Como a violência permeia tudo o que vivemos hoje, cada um vai reagindo a seu modo e expressando de maneira personalizada seu sintoma.
Cada um de nós que queira chegar mais longe no processo de conscientização precisa estar mais e mais atento às suas próprias ações.
Mesmo para aqueles que aspiram a Deus, se não se conhecerem a fundo não enxergarão a verdade Maior.
A violência que hoje discutimos nos mais variados fóruns não é diferente, na essência, do que sempre foi. 
A falta de amor, isto é, o distanciamento do amor, nos joga num viver errante, desumanizado... animalizado.
Desta forma vamos, numa esfera mais íntima ou social, experimentando os efeitos da falta do exercício do amor, que depende de cada um de nós. 
Se não amo, não espero em Deus, ajo por mim mesmo para defender com unhas e dentes o que tentaram fazer contra mim.
E assim vou sendo somente carne e logo vou pipocando em sintomas: depressão, ansiedade, medo, neuroses, transtornos alimentares, de humor, etc...
O homem, afastado do amor de Deus, se torna um animal cego por seus instintos.
Nós somos repletos de verdades parciais fruto dos nossos valores pessoais e culturais. 
Quando crianças vivenciamos muitas situações e absorvermos tantos problemas ao nosso redor que não nos damos conta do quanto eles se enraizaram dentro de nós.
Freud já falava sobre um mecanismo de autoproteção chamado amnésia infantil. 
É como se tivéssemos a chance de esquecer para não vivermos sobrecarregados demais pelas experiências mais significativas e formadoras de nossa personalidade, que tivemos nos primeiros anos de vida. 
Não lembramos ou não percebemos as rejeições que vivemos, e como nos formamos em função destas.
 
Brigando com as sombras
 Às vezes parecemos verdadeiras bombas-relógio ambulantes descarregando todo um potencial agressivo represado na primeira pessoa que aparece.
As respostas que damos a muitas situações, pela intensidade desproporcional à situação real, parecem projeções, ou seja, ao invés de estarmos agindo objetivamente em resposta a uma situação atual, estamos sim, respondendo a ela, em função da emoção que sentimos por termos sido remetidos a uma situação mais antiga e não resolvida em nossas vidas. 
Por isso que o autoconhecimento é uma questão fundamental e não opcional. 
Se eu não entender o enredo da minha vida, sairei por aí “atirando a esmo”. 
Não podemos empurrar para frente uma situação totalmente emaranhada, sem consciência alguma de nossa autoria nela, e pior ainda, nos achando meras vítimas de tudo.
Temos sempre a escolha de como viver as situações, não de evitar vivê-las, por isso temos que saber quais são nossas metas e prioridades.
Saber quais as nossas motivações mais vorazes e ocultas para entendermos várias questões em nossas vidas. 
Temos que rever a coerência de nossos pensamentos, atos e palavras, para não nos surpreendermos conosco ao nos olharmos mais atenta e profundamente no espelho.
Nossa preocupação com a violência externa é tão grande que não percebemos o perigo da violência que mora dentro de nós.
Como investimos pouco tempo para nos aprofundarmos no autoconhecimento, crescemos muito menos do que poderíamos e precisaríamos para melhor viver.
Ninguém gosta de pensar que precisa enxergar e trabalhar seus “erros”. 
“Por que eu?, Sempre eu?” O nosso caminho é individualizado, pessoal e intransferível.
Muitas vezes estamos acompanhados, vivendo em família, em comunidade, ou em um grupo qualquer, mas a nossa experiência ainda assim é solitária. 
O que sentimos, pensamos e fazemos, só nós vivenciamos e também responderemos em função de nossas escolhas. 
“Um erro não justifica o outro”. É verdade.
Se não nos conhecermos mais a fundo quereremos apenas nos defender, mesmo que isso implique em atacar. 
 
“... Mas, de que vale o homem ganhar o mundo se vier a perder a sua alma?”
 Hoje, se fala muito em direito do consumidor: direitos, direitos, direitos... 
Isto não é ruim em si, o problema é a que propósito servirá. 
Nosso egoísmo, egocentrismo se mascara de diferentes formas e sem percebermos vamos nos tornando pessoas pouco transigentes e amigáveis. 
Tudo virou lei! “Olho por olho, dente por dente”. 
Se amássemos mais não precisaríamos de leis para nos governar. 
Seríamos regidos pelo amor (pelo amor de Deus).
Não faríamos a NINGUÉM o que não quiséssemos para nós. 
Não mataríamos, roubaríamos ou mentiríamos, nem que soubéssemos não haver punição.  Porém o mais freqüente são os nossos desejos incontidos. 
Queremos, porque queremos e queremos e queremos.  
Não vemos a quem prejudicamos, não somos conscientes, nem sensíveis a este ponto. 
Não queremos é sair no prejuízo. 
Perdoar? Mas foi o outro que errou e ele nem está arrependido... 
E no que este mal vai se transformar dentro de mim, que certamente irei arquivar esta conta? 
Se quando amamos só queremos ficar perto da pessoa amada, quando odiamos também não paramos de pensar nela. 
O amor SEMPRE liberta e nos faz sair ganhando, mas como ser um guerreiro pacífico?  Como não sair ferindo os outros ou a nós mesmos, nos sentindo culpados?
Temos sempre que mergulhar mais e mais a fundo dentro de nós mesmos, conhecer nossas formas de agressividades e de onde elas vêm, ou ficaremos brigando com as sombras, gastando munição se nada lucrar. 
 
A melhor defesa é o ataque?
 Muitas vezes comemos demais, por raiva.
Gastamos demais por vingança.
Falamos demais para nos aliviar.
Tomamos as dores alheias por necessidade de fazer justiça e só ficamos mal e perturbados sem avançarmos em nada, apenas agimos compulsivamente em vão.
De que adiantará achar os culpados, se sempre haverá mais e mais?
Quando então eu serei feliz?  Se o meu interior estiver fervilhando como um caldeirão quente não teremos sossego. 
Precisamos nos aquietar, não engolir sem resolver, mas fazer as pazes com a vida, crer no olhar atento do Pai e confiarmos que só o amor é o caminho.
Mas tudo isso terá que ser junto de uma fé amadurecida, capaz de entender que a única segurança está em Deus e não em nossas estratégias de ataque e de defesa.
Peçamos a Deus o discernimento para a caminhada e a fé tal qual a de Jesus quando se entregou totalmente por amor: “que seja feita a Tua vontade e não a minha”.
 
Vazio: raiva, insatisfação agressiva
 Como não sabemos quase nada de nosso eu mais profundo e como o mundo nos impele à fama e ao sucesso materiais, como forma de medirmos o nosso valor pessoal, freqüentemente caímos em um vazio devastador. 
Da mesma forma, imersos em nosso egoísmo desenfreado, vamos vivendo com a ilusão de que como reis e rainhas devamos ser satisfeitos em cada um de nossos desejos, por nos acharmos com todo o poder e o direito para tal.
“Sejam simples”, diz o Senhor... mas nós queremos é ser o próprio Deus. 
Queremos logo sentar na primeira fila, esquecendo a possibilidade de sermos convidados a ceder o lugar para outro convidado. 
Raramente vemos o trivial com a mesma importância que o extraordinário. 
Não vemos o sagrado no simples, no dia a dia, no comum...
Mas tudo é igualmente precioso e não vemos a oportunidade de grandes mudanças e crescimento, o que se daria se confiássemos que Deus está sempre presente, que “nenhum fio de cabelo nosso cairá sem que Ele o permita e saiba”. 
Mas, ao invés disso, vamos pelo outro caminho, o caminho do medo, do toma lá da cá, nos atacando e defendendo mutuamente. 
Não é que não devamos reagir, mas ao que e por que estaremos reagindo é tão importante quanto o como estaremos reagindo?
“Estamos no mundo, mas não somos do mundo”.
“Se nos alimentarmos só de carne seremos apenas carne”. 
Não podemos apenas fazer esta roda girar, precisamos nos conscientizar de nossa responsabilidade, sobre tudo o que nos é dado a viver.
 
Fazer cada coisa com cuidado, com dedicação, com amor
 Nesta roda-viva em que vivemos vamos nos acostumando com o fast-fast para tudo, o que não queremos é nos preocupar nem ter trabalho. 
Desta maneira, vamos achando que estamos lucrando, mas na verdade vamos nos alienando de todo o processo natural da vida em nome do progresso. 
Sem percebermos vamos ficando distanciados, dissociados das coisas mais básicas da vida, prejudicando o nosso crescimento e relacionamento com as pessoas. 
Vamos fazendo cada coisa de modo a não termos aborrecimentos ou trabalho. 
Com isso vem o vazio, a falta de sentido para as coisas. 
Ficamos livres dos incômodos, mas fechados para o curso natural da vida. 
Como o ser humano só quer comprar, exigir e normalmente fazer com o mínimo de esforço pessoal, ele vai olhando mais para fora do que para dentro. 
Ao invés de fazermos com muita atenção, dedicação e amor com aquilo que estamos envolvidos, geralmente fazemos as coisas por obrigação ou prazer, mas muito pouco conscientes de que cada coisa é igualmente importante, assim como cada pessoa é igualmente importante aos olhos de Deus. 
Então, o ideal seria a exemplo dos orientais, fazermos uma coisa de cada vez: quando estivermos almoçando, almoçar; quando lermos um livro, apenas lê-lo e assim por diante.
 
O caminho da santidade está na vivência do cotidiano
 Não valorizamos as coisas simples, vivemos atrás do que é mais valorizado e nunca nos descobrimos nas coisas, vamos fazendo o que o seu mestre mandar.  
Como mergulhar no auto-conhecimento se não ousarmos escolher trilhar nosso próprio caminho e sim o que nos parece mais fácil ou recomendado por alguém?! 
Como darmos chance de Deus nos capacitar em algumas áreas se estamos só dorminhocando, sendo vítimas ou olhando a grama mais verde do vizinho?! 
Se não sossegarmos, ficaremos ansiosos demais para perceber o caminho da santidade.  Invejaremos os outros sem entender e nem perceber o potencial que poderíamos estar desenvolvendo.
 
Onde entram minhas doenças: minha depressão, ansiedade, medo, neste assunto de violência?
Uma depressão, bem como qualquer outro sintoma que nos apareça pode ser uma peça reveladora do quebra-cabeça desta vida que vivemos, ao invés de ser situação ou “doença” que irá nos consumir e devastar todo nosso viver.
De nada nos adiantará combatê-las maciçamente, como um pelotão bombardearia o inimigo.
É preciso entender porque elas apareceram e tiveram lugar em nosso viver...
Nossas “doenças” nos tempos atuais.  O que são estes sintomas que falam por nós?
Serão eles castigo?
Uma contingência de vida a ser vivida sem porquês, mas com amor e por amor?
Um resultado de um descaminho, um desequilíbrio?
E o que tem a ver o amor e a violência atual com nossas “doenças”?
Precisamos rever nossos conceitos e prioridades , nos voltar para a fonte.
Estamos muito nervosos, chateados, tristes, infelizes, deprimidos, ansiosos, raivosos, amedrontados, às vezes até conosco também.
Vamos vivendo o dia a dia com o compromisso básico de sobreviver, que nem vemos mais o que fazemos, que critérios e valores estamos exercitando.
Poderíamos achar “o remédio” e pôr fim a estes incômodos e ficaríamos reféns do medo deles voltarem pela sensação sabida de que estes problemas não foram superados, concluídos em nós.
Não poderemos nos livrar do que ainda é nosso. 
Entretanto, tudo bem utilizado pode ser material para o nosso crescimento, caminho de santidade.
 
O mal não está fora, mas dentro de mim.
 “O mal não é o que entra, mas o que sai da boca do homem”.
Que limonada temos feito dos limões recebidos? 
Será que eu percebo que não posso compartilhar de tudo que virou padrão normal no mundo de hoje? 
Sim, porque o que a maioria faz “já está liberado”. É? 
Vamos pensando na pena de morte para os crimes hediondos: “olho por olho, dente por dente”.  Aonde chegaremos assim? 
Estamos, de fato, buscando a paz?
Tudo sempre dependerá de como estivermos e o que estivermos cultivando dentro de nós.
Se apenas nos contentarmos com o toma lá dá cá, não entenderemos a proposta de Jesus: da paz, do amor... do perdão, que é fruto de muito amar.
E se por fim não tivermos entendido nada disso, já estaremos na contra mão do céu.
Estarei disposto a escolher o caminho do guerreiro pacífico?
Do amor?
De dar a outra face?
Temos que saber que o nosso viver transcende este mundo material com suas regras e conseqüências.
Tudo pode fazer desmoronar o meu castelo.
Medo – “posso morrer, ser prejudicado fatalmente...”.
“Preciso me defender do mal, do perigo. Posso me contaminar, adoecer... pirar!”
Como os outros podem viver tão irresponsavelmente, soltos, sem perceber todos estes riscos?”
E os outros tipos de ameaça tais como a violência referida? 
Contra que mal realmente a pessoa tenta obsessiva e impulsivamente se proteger? 
De onde terá vindo a referência de perigo para ela desde seus primeiros instantes de vida? 
E como ela terá se estabelecido, na vida da pessoa? 
Será que o que ela teme é o que realmente lhe causa tanta angústia e medo ou estará representando um medo mais profundo e inconsciente?
Mais uma vez, é por isso que entendermos a importância do autoconhecimento e ansiarmos por buscá-lo exercitar em nossa vida é de fundamental importância para não ficarmos tocando um determinado ponto e vivendo quase que para ele, em evoluirmos em nada por não estarmos conscientes dele. 
Desta forma estaremos sendo consumidos por nossas necessidades de controle e defesas, estanques, sem a chance de viver a vida com verdade e com alternativas. 
Quando concentramos nosso olhar em alguma coisa específica não entendemos quase nada, em função do medo em que estamos metidos. 
A vida sempre pressupõe riscos.
Deveríamos pensar que há sempre muito mais a ser percebido, vivido, experimentado em favor de nosso amadurecimento na fé.
Cada mínima coisa que se nos acontece é a chance de uma renovação, de um recomeço, de voltarmos a viver no paraíso, apesar de qualquer contingência. 
Tudo dependerá daquilo que estiver norteando o nosso viver.
 
“Nem só de pão vive o homem”
 Se não pararmos as coisas a partir de nós mesmos, nada surtirá o efeito imaginado.
Estamos adoecendo e pensamos tão somente que é a pura violência que se instalou.
Estamos diferentes, descontrolados, indiferentes.
Vamos vivendo neste mundo sem muito envolvimento, mais preocupados em resolver nosso pedacinho de interesses e o resto... bem, o resto que alguém cuide. 
Somos parte de um mesmo corpo.
Mergulhados em nossas ilusões vamos andando de “montanha russa”, subindo bem alto, através de nossas expectativas e nos entristecendo inesperadamente quando nos sentimos fracassados.
Não experimentamos a vida da forma que Deus nos propõe.
Não vivemos a vida como se houvesse um Deus. 
Rezamos, sim, para ajudar, mas não percebemos que Deus está acima de tudo e que tudo tem o seu porquê, a sua finalidade.
E em nossa visão simplista, embarcamos em nossas “neuras”, por medo, por “cansaço existencial”, etc.
O que será pior, estar doente ou estar perdido de si mesmo e de Deus?
Sim, vivenciar estas coisas é muito mais difícil do que dizê-las, mas quando o conseguimos, toda situação real da vida fica menor. 
O que importa no final é a nossa resposta e não o que vivemos, pois sobre isso não temos domínio.
E não nos esqueçamos, “tudo sempre foi entre nós e Deus e não entre nós e os outros”.

 

 

 

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