Transtornos alimentares como uma auto-expressão

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Engana-se quem acha que comer é um ato simples, banal e relativo tão somente à nutrição.
Como sabemos, comer é muito mais do que se nutrir.
Existem outras necessidades ligadas ao comer tão essenciais e básicas quanto o comer para saciar a fome fisiológica.
“A gente tem fome de quê?”
Se pensarmos bem, nosso primeiro alimento, o leite materno,  vem acompanhado de afeto e prazer ou da falta destes.
Registramos, embora não lembremos, sensações boas e ruins relacionadas ao ato de comer.
Podemos ter tido boas experiências associadas ao comer que automática e involuntariamente recorremos a elas  como uma gratificação, um prazer a mais, importante... familiar!
Outros podem ter sido privados de comida ou de afeto e querem empanturrar-se com medo de que algo lhes venha a faltar.
Outros ainda podem ter associado o comer a morder, descarregar, agredir ou agredir-se.
Enfim, várias podem ter sido as causas desencadeantes do nosso comer desequilibrado, incluindo a nossa constituição genética. 
Às vezes, nosso metabolismo não nos permite emagrecer naturalmente como outras pessoas através dos mesmos métodos.
Em alguns casos quando a barra pesa temos dificuldades em lidar com o que está nos acontecendo.
Acabamos por nos fixar ou freqüentemente recorrer a etapas anteriores de desenvolvimento na vida.
Nestas épocas anteriores, os  primeiros meses de vida, nossa forma única e inicial de gratificação era o prazer de comer e o que de associado vinha junto a ele.
Comer, em geral, traz saciedade e prazer.
Com o desenvolvimento vamos descobrindo novas formas de gratificação. Ou não.
Nossos  horizontes vão se alargando.
Mesmo assim, muitos de nós às vezes ficam restritos a poucas formas de obtenção de prazer.
É como se não tivéssemos crescido por inteiro.
Ficamos meio bebês.
É como se a exemplo deles também permanecêssemos
...Dependentes.
À espera do que venha de fora a nos prover daquilo que necessitamos.
Assim é o bebê, não se sente completo, nem seguro, nem satisfeito... sem a mãe (ou algo que a substitua).
Seguindo este molde, vamos transferindo para pessoas e coisas a tarefa de nos saciar naquilo que sentimos falta.
Desta forma tenderemos a esperar pela resolução de nossos problemas ao invés de nos envolvermos mais com ela.
É como se fôssemos incompletos.
Inseguros, incapazes... DEPENDENTES.
Isto é próprio do bebê que fomos e que podemos estar a ele ainda identificados.
Não que a dependência não seja inerente ao ser humano, mas esta FALTA deveria sim, nos mover ao invés de nos empanturrar de coisa e de idéias e pessoas que engolimos e na maioria das vezes, sem critérios.
Inchamos sem necessariamente crescermos.
Esta reflexão é válida não apenas para distúrbios alimentares como para as demais manifestações que podem ocorrer a partir de como se tenham dado nossas relações afetivas desde o início da vida.
Precisamos recordar e refletir sobre estas coisas para melhor entender a origem e o funcionamento de nossas ações e reações atuais.
Caso contrário, embarcaremos no pensamento simplista de que precisamos apenas de força de vontade.
Tudo é muito maior do que isto.
Trata-se de como está se desenvolvendo a vida.
Que sinais se estão dando para que se possa aprofundar o conhecimento e se melhorar o viver.
Tudo são apenas sinais...
E queremos dar cabo de tudo num passe de mágica para nos livrar do problema...
Consertar-nos.
Isto é o de menos.
Se seguirmos por este caminho estaremos, provavelmente repetindo a maneira usual de colocar nas mãos dos outros a solução e o entendimento sobre nós mesmos.
Dependência novamente...
Valer-nos de uma ajuda, tudo bem . Mas transferir a responsabilidade... Ilusão!
Fala-se muito em obesidade, anorexia, dependência de drogas (incluindo-se álcool e cigarros) de uma forma FOCAL. “Como vamos resolver este problema?”
Mas temos que pensar nestas situações como sintomas de algo maior que está gerando estes comportamentos preocupantes que estão aparecendo. E os que não aparecem?
Como eliminar um sintoma sem eliminar a causa?
Nós nos preocupamos demais com o que vemos e nem ligamos para o que não vemos.
Precisamos ser mais cuidadosos. Investigar mais
... suspeitar!
Ouve-se muito que só é gordo quem quer. Soa tão fácil...
Dá a entender que é uma questão exclusiva de força de vontade.
De outro lado, oferece-se guloseimas a quem morre de medo de engordar só em pensar nelas, sem se ter a menor noção do tipo de sofrimento que aquela pessoa passa.
Sem suspeitar sequer que ela esteja inconscientemente querendo evitar botar para dentro qualquer coisa que seja, quer por medo de não estar suficientemente adequada aos padrões, quer pelo fato das pessoas sempre terem exercido muita pressão... ocupado muito espaço!
Na verdade tudo acaba indiretamente doendo em nós.
Lembramo-nos da nossa impotência, ignorância... arrogância!
Como somos simplistas!
Remédio para isso, remédio para aquilo...
Ou então achamos que ainda não acertamos com o médico ou com o tratamento.
Rapidez, praticidade... ou seria,  eficiência que buscamos?
Queremos a solução que não nos exija sacrifícios e sim eficiência,  dos outros, em nos prover.
Tudo sempre parece estar do lado de fora.
Mas não somos mais bebês!
A vida nos chama a vencermos as nossas deficiências e limitações com coragem e vontade de superação.
Alguns de nós frente a obstáculos fugimos ou pedimos por socorro externo sem nunca tentar um passo a mais.
Sem nunca tentar vencer a barreira da frustração.
A frustração ou a possibilidade de, podem gerar muita ansiedade.
A comida parece concretizar um substituto de algo que se quer ter consigo naquele exato momento...que seja alcançável!
É como se brincássemos de poder aquilo que precisamos, sem ter que contar com o outro. Nós o substituímos simbolicamente por um objeto.
Pode ser comida, bebida, cigarro, etc.
Não resolve, mas achamos que nos satisfaz.  Temporariamente... reduz a ansiedade, ilusoriamente.
Traz apenas esta aparente sensação de alívio pelo suposto relaxamento que vem com o prazer.
Mas pode também levar à  destruição ou à autodestruição, mesmo que de maneira logicamente imperceptível.
Há que se ter calma para conseguir manter a batata quente nas mãos e não perder a importante chance tanto do autoconhecimento, quanto da capacidade de encarar o problema.
Pensar no tanto que se terá que fazer e percorrer dentro de nós...
Dá ansiedade.
Sim, muita. Tudo parece estar ligado à ansiedade e à auto-estima.
Não podemos generalizar, mas devemos reavaliar nossos passos.

Quanto mais o conseguirmos,  mais estaremos no caminho da verdadeira paz e libertação.

 

 

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